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Quando o trabalho imita a arte - 1ª parte
Nos discursos, tenho buscado inspiração em temas que sempre remetem às potencialidades do ser humano. Determinação, superação, persistência, envolvimento pessoal e social são algumas das características da condição humana vitoriosa e comprometida com os valores fundamentais. Elas se desenvolvem de acordo com nossa história, nossas crenças, necessidades e, sobretudo, em concordância com nossos desejos e nossos tempos.
Nesta noite vamos refletir sobre Vida, Trabalho e Arte, demonstrando que o Trabalho pode imitar a Arte. O pano de fundo é um espetáculo do grupo Riverdance, originário da Irlanda, que já foi aplaudido por mais de 20 milhões de pessoas, em 32 países.
Começo fazendo a vocês uma pergunta: se um perfeito espetáculo de dança, um bom quadro, uma bela escultura, um filme premiado e um texto de valor literário são classificados como obras de arte, por que a própria vida também não o pode e deveria ser? A apresentação emocionante e entusiasmada do nosso Coral do Mater Dei, sob a regência da Alessandra Rocha, evidencia um combinado de Vida, Trabalho e Arte.
Há algum tempo, assistindo a um DVD do Riverdance, do qual extraímos a parte que mostramos, encantaram-me a precisão técnica, a sensibilidade, a sincronia e a habilidade dos bailarinos no sapateado. Seus passos são diferentes dos de outros tipos de dança. A movimentação de mãos e braços é mínima. Todo o esforço está concentrado nos pés.
Sabe-se que as imagens são capazes de falar melhor que as palavras. Elas conseguem captar a essência dos acontecimentos e mobilizam nossos sentidos de maneira imediata. No caso desse balé moderno, de que mais as imagens nos falam? Elas seriam uma demonstração de Vida, de Arte, de Trabalho ou da união desses?
O escritor irlandês Oscar Wilde disse que, "se um homem encara a vida de um ponto de vista artístico, seu cérebro passa a ser o coração". A esse pensamento, acrescentaremos que, fazer algo com o coração nos leva ao encontro a mais genuína emotividade. Afinal, os únicos limites do homem são o tamanho de suas ideias e o grau de seu entusiasmo. Talento e inteligência nunca determinam por si só o sentido da vida das pessoas; o sentido se define pelos sentimentos bons ou maus que porventura elas tenham.
A criação de uma obra de Arte requer dedicação e concentração, mas, antes de tudo, exige algo que remete seus criadores a uma ideia de transcendência, única e interiorizada. Essa ideia é o chamado estilo. Na Arte, é a maneira própria de criar um objeto artístico. Na vida, é o jeito de cada um de nós se colocar, se posicionar e se comportar diante do mundo ou de fazer as coisas.
Por meio do estilo, os melhores se revelam no trabalho: médicos e outros profissionais de saúde, que se destacam em suas especialidades e que se superam nos cuidados junto ao paciente; gestores, que estão impregnados de espírito inovador nas tarefas administrativas; auxiliares – dos mais graduados aos menos escolarizados – que vivem atentos ao seu serviço. Todos se empenham, incansavelmente, para manter as atividades do Mater Dei em correto funcionamento para atingir seus objetivos.
Nessa perspectiva, entende-se que o estilo de trabalhar, o atendimento personalizado, a marca e o destaque que buscamos imprimir em nossas atividades podem enquadrar-se na Arte. Do mesmo modo, certas habilidades como arte para ouvir, para ter empatia e compaixão, para amenizar conflitos, para aliviar a dor, para negociar em divergências ou decisões, para revelar novos talentos – por sua vez são outras formas de Arte. Afinal, a Medicina é também Ciência e Arte. Às vezes, mais Ciência; outras vezes, mais Arte.
O artista e o bom profissional sempre esperam ser reconhecidos por aquilo que criam. A falta desse reconhecimento será fatal se perderem o mais importante: a esperança. Tal perda irá privá-los da criatividade, do estímulo, da emoção, da vontade e da energia para prosseguir. Tornam-se mortos em vida, pois, se nada mais os inspiram, não conseguem mais sonhar nem produzir.
O talentoso músico e compositor Gonzaguinha, que também era cliente do Mater Dei, canta que "O homem se humilha, se castram seu sonho. Seu sonho é sua vida. E vida é trabalho". Interpretando esses versos, diremos que, se a Vida é Trabalho, o Trabalho e a Arte podem compor uma sinfonia e uma dupla inseparável dentro da vida plena. E o cantor completa: "E sem o seu trabalho, o homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata".
Entretanto, o trabalho artístico muitas vezes não é compreendido. O genial pintor Van Gogh chegou a trocar quadros por pratos de comida. Seu estilo estava muito além do que as pessoas de sua época podiam perceber e valorizar. Com o passar do tempo, suas obras alcançaram sucesso e valores extraordinários. Mas, já era tarde: o pintor perdera a esperança, enlouquecera e se matara. Morreu na miséria, sem experimentar a alegria e o entusiasmo do reconhecimento e da valorização. Não chegou a usufruir do sentido mais amplo que seu trabalho iria proporcionar-lhe. Foi privado de sonhos e da possibilidade de continuar a exercer o seu ofício de criador.
Acredita-se que o trabalho artístico pressupõe inspiração. Contudo, essa não exclui dedicação, persistência e coragem para enfrentar dificuldades. Observamos a vibração que emana da performance conjunta e perfeita dos bailarinos do Riverdance. O ritmo uniforme, vibrante e belo dos seus passos consegue alcançar uma sonorização perfeita, que até dispensa a orquestra. A música está presente em compassos de um trabalho virtuoso de sapateado, que encanta nossos ouvidos e nossa visão. Ritmo e sons emergem de uma equipe de profissionais e, mesmo a despeito das dificuldades que certamente existem no desenvolvimento de tal performance, essa nos deixa a certeza de que esforços conjuntos são capazes de feitos surpreendentes.
Da mesma forma, um trabalho, sobretudo quando realizado em equipe, pode configurar-se em Arte. E se definirmos "Arte" como "habilidade dirigida para um bom resultado", podemos todos nos considerar criadores de Arte ao contribuirmos com nosso trabalho no sucesso do Mater Dei.
Discurso de José Salvador Silva, proferido em 12/12/09, durante confraternização de natal e ano novo do Hospital Mater Dei.

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